
"La Rabbia de Pasolini é um filme inspirado, eu diria, não por uma cólera enraivecida, mas por um sentido feroz de resistência. Pasolini observa o que se passa no mundo com uma lucidez infalível (Rembrandt desenhou anjos que possuem esse mesmo olhar). Porque a realidade é tudo que temos a amar. Não há nada além disso. Sua rejeição à hipocrisia, às meias-verdades e às falsas aparências, aos gananciosos e aos poderosos é total, pois essas dissimulações criam e alimentam a ignorância, o que é uma forma de cegueira frente à realidade. E também porque elas atrapalham a memória, incluindo a da própria língua, nossa herança primeira.
Contudo, não era simples endossar essa realidade que ele amava, pois, na época, ela era uma decepção. Muitas esperanças, florescidas e desabrochadas em 1945 após a derrota do fascismo, haviam sido traídas. A URSS havia invadido a Hungria em 1956. A França havia começado, em 1954, sua guerra covarde contra a Argélia (que buscava, corajosamente, sua liberação). A acessão à independência das antigas colônias africanas era somente uma macabra farsa. Patrice Lumumba tinha sido liquidado no Congo, em 1961, por assassinos a mando da CIA. O neocapitalismo já se aprontava para dominar o mundo.
Apesar de tudo, as esperanças permaneciam. Aquilo que havia sido legado era muito precioso e muito consistente para que se renunciasse a ele. Dito de outra forma, era impossível ignorar as exigências da realidade, revoltantes e onipresentes. Que se manifestava no rosto de um jovem. No modo que uma mulher cobria seu rosto. Em uma rua onde as pessoas se apressavam para reclamar por menos injustiça. Nos risos suscitados por suas esperanças e na despreocupação de suas brincadeiras. É daí que vem sua raiva de resistência. A resposta de Pasolini à questão original foi simples. A luta das classes explica a guerra. [...]
Em um determinado momento, La Rabbia de Pasolini nos lembra que todos nós temos o direito de sonhar em ser como alguns de nossos ancestrais! E ele acrescenta: somente a revolução pode salvar o passado. La Rabbia é um filme de amor. Isto dito, sua lucidez é comparável àquela do aforismo de Franz Kafka: Num certo sentido, o Bem não traz nenhum conforto. É por esse motivo que eu digo que Pasolini parecia um anjo."
(John Berger, no Le Monde Diplomatique sobre A Rabia. Podedes ler o artigo completo aquí)
Mércores 5 de Decembro ás 22:00
O peirao
(La jetée, Chris Marker, Franza, 1962, 28′, VOSG)
A rabia
(La rabbia, Pier Paolo Pasolini, Italia, 1963, 50′, VOSG)
chuzame -