Ozu por Pedro Costa

No início dos anos 80 tive a sorte de ver uma retrospectiva dos filmes de Ozu. Vi mais de dez de enfiada, o que me deu realmente uma ideia do seu cinema. Até aí, eu considerava o Mizoguchi como uma montanha intransponível, mas depois foi o Ozu que passei a ver assim. Nessa altura, eu tinha pouco mais de vinte anos, era membro de um grupo punk-rock onde, sempre a bramir a minha guitarra, cantava para denunciar os males deste mundo e clamar a maneira de lhes pôr fim. O meu objectivo era destruir a ordem deste mundo, destruir este mundo burguês. Jovem anarquista violentamente contra a ordem social e as suas instituições, como a família, tive este encontro com a obra de Ozu e sofri um choque extraordinário.

Aquilo que se produziu nesse momento, foi o encontro de duas violências. Uma, residia na minha própria atitude, tratava-se da minha radicalidade de juventude, e do meu desejo de transformar esse mundo sinistro; a outra violência, a do cinema de Ozu, não sei se lhe deva chamar assim. Talvez se deva antes falar de tensão, essa tensão extraordinária que emana dos seus filmes. A ternura ou o amor que os filmes de Ozu nos mostram e aquilo que eu procurava exprimir torturando a minha guitarra eram uma e a mesma coisa. Então, pela primeira vez, percebi que tinha vontade de fazer uma espécie de filme curto. Acreditei que se eu conseguisse fazer esse filme, eu que nesses tempos não sentia pertencer a nenhuma família ou comunidade, podia sair dessa situação.

[...]

Mizoguchi, a quem perguntaram o que pensava do Ozu, disse: "Ele faz filmes nitidamente mais difíceis do que os meus." Dito do meu ponto de vista, acho que o Ozu é o realizador mais punk que há no mundo, o mais revolucionário, graças ao seu modo de estar sempre um passo à frente, sem perder a sua extrema generosidade. Para mim, qualificá-lo de punk tem um sentido muito preciso: significa que é um artista com um coração de criança, e ao mesmo tempo de uma grande maturidade, é a capacidade de ter simultaneamente cinco e oitenta anos.

Pedro Costa | "Un cineaste punk" | Cahiers du Cinéma nº614 | (Textos de Apoio Doc's Kingdom, Serpa 2006) (tirado de http://last-tapes.blogspot.com)

Mércores, 14 de febreiro, 22:00
Ósos (Ossos, Pedro Costa, Portugal, 1997, VOSP)

Chuzame! chúzame -

1 Comentario »

  1. d. Said,

    febreiro 14, 2007 @ 2:22 pm

    punk ou barbarie,

    xa o dícia Motorhëad.

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